terça-feira, 2 de junho de 2009

Sonhar também é preciso...


Navegar é preciso, sonhar também é preciso, peço licença ao grande poeta português para parodiá-lo. E poder contar a nossa história. Trata-se da saga dos Almeida, talvez nem tão bem contada e importante como a dos Terra - Cambarás, mas importante porque é a história de nossa família, a que sofri e vivi. Década era início de 1950. Vivíamos como a maioria dos brasileiros na região rural labutando com plantações de subsistência e a criação do gado que servia para o corte, fornecendo também o couro e o leite. Vivíamos de início bem isolados, morando em casa de caboclo do Vale do Paraíba: chão de terra batida, cobertura de palha, pau a pique, construção de origem indígena, assim vivia a maioria das famílias. Pobre deste jeito, talvez nem pudéssemos sonhar, alguém poderia dizer, mas sonhávamos com coisa melhor, livro em casa só a bíblia, mas lembro-me de meu pai lendo-a deitado em uma rede após o trabalho e dizendo:” Luiz você vai fazer o Científico”, pequeno menino, totalmente ignorante das coisas, mas meu pai me fazia sonhar com coisas melhores, me colocava sonhos de que um dia iria estudar sair da pobreza intelectual e material, pois a pior pobreza é a de espírito. Um povo que enriquece o espírito certamente está destinado a ser um grande povo. “Tudo vale a pena se a alma não é pequena”, já dizia o grande poeta português. Então eu saia pelo mato golpeando as bananeiras com uma faca de cozinha, dizendo: “Eu vou fazer o Científico”, se há alguma analogia com Dom Quixote, vocês me desculpem. Mas certamente há alguma, todos nós temos um pouco de Dom Quixote, é só saber estimula-lo. Meu pai colocou sonhos na cabeça do menino. Sonhos bastantes quixotescos, considerando é claro as condições que vivíamos. Chegando a idade escolar meu pai me levou à escola do bairro, quase fui recusado devido ao tamanho mirim: muito magro e subdesenvolvido. Mas com alguma insistência paterna fui aceito e matriculado, um tempo depois minha irmã também me fez companhia nos bancos escolares. Escolinha pequena, acanhada, mas foi onde aprendemos as primeiras letras na cartinha Sodré cuja primeira lição era a da “Pata”. Mas o tempo foi rodando, meu pai amigo do progresso construiu casa nova, agora coberta de telha, pisos de tijolos e pasmem vocês, instalou míni-usina elétrica que fornecia algumas horas de eletricidade, que dava para ouvir radio mais ou menos umas três horas por dia. Como o potencial hidráulico era pouco a usina só funcionava das cinco às oito da noite, quando íamos dormir. Ouvíamos como não poderia deixar de ser Tonico e Tinoco, programa caipira chamado na “Na beira da tuia”. Pra quem não sabe: tulha, é uma espécie de silo pequeno dentro da casa onde se guardava mantimentos, ou seja, milho, feijão, arroz, enfim produtos de subsistência do caboclo. Em caipirês da época prinunciava-se se "tuia". A escolinha da roça era fraca e havia professores até a terceira série primária dos dias de hoje. Então chegou o ano fatal, não havia mais escolas pra nós estudarmos, se quiséssemos terminar o curso primário teríamos que ir à cidade mais próxima. Mas esta ficava longe, então a permanência no sertão ficou difícil, senão impossível. Foi quando com grande tristeza deixamos nossa querência, não sem um grande pesar deixamos à terra que nos viu nascer. As campinas verdejantes do sertão ficaram pra trás, juntamente com a casinha branca da serra. Lembro-me muito bem da mudança, os cavalos carregados dos poucos tarecos e mobílias iam lentos pela estrada, minha mãe a meu lado, íamos em direção a outro destino. Olhamos pela ultima vez a bela casinha branca que foi ficando pra trás juntamente com o verde das campinas. Não vou mentir, mas meu coração me doeu muito ao despedir-me do grande sertão...

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Gosto de escrever, não o escrever por escrever, mas até uma necessidade intrínseca de me expressar, de transmitir algo, um pensamento, com ist0 eu possa despertar algo de bom em meus amigos. Muitas vezes mesmo é meu desejo de comunicação, já como disse uma amiga, sou tímido, então a comunicação verbal direta estaria dificultada, então a comunicação via internet mil vezes potencializada. Diga o que disserem, mas o computador aproximou as pessoas, que muitas vezes estavam distantes, e tinham poucas possiblidades de comunicação. E os "bloguistas" podem então dar asas a sua imaginação e exercitar as suas potencialidades, que terão mais ou menos leitores de acordo com suas possibilidades e capacidades. O meu blog é geral, pois trato de qualquer assunto, moderno, contemporâneo, assuntos atuais, problemas brasileiros e outros tantos.

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