sábado, 16 de maio de 2009

Cuidado com as esporas!!

Chovia muito aquele ano, a paisagem brumosa não fazia senão anunciar mais chuvas naquele distante verão da minha infância. Mas a chuva era um tanto fria, já anunciando a frialdade de um próximo outono que se avizinhava. Família numerosa, recursos escassos, distâncias enormes até a cidade mais próxima O meio de transporte mais rápido por estas paragens é o lombo do cavalo. Naquela é época minha mãe havia ficado doente, não doencinha qualquer que se cura com chazinhos ou benzimentos, mas doença bastante grave, ia emagrecendo e ficando muito fraca. Foi até cidade grande diagnosticado que o “peito estava fraco”, ou seja, Tuberculose. Ainda naquela época era doença bastante freqüente por aquelas paragens, que ameaçava a vida. Com medo que nossa mãe fosse chamada por Nosso Senhor precocemente, e deixasse órfã família numerosa providenciamos logo o tratamento. Fomos a importante Médico Tisiologista de cidade grande e bastante distante. Deslocamentos do sertão que morávamos era difícil, dificultado agora pelo período de chuvas. Tratamento tinha que ser muito rigoroso com visitas médicas a intervalos regulares, retornos e exames complementares freqüentes. O deslocamento como disse de início era o mais difícil até cidade próxima onde se tomaria outra condução que seria um ônibus ou um carro particular. O retorno também exigia uma logística especial. Pois bem, a história que quero contar aconteceu exatamente num destes retornos de nossa genitora do médico Tisiologista. Os cavalos tinham que ser levados até uma cidade próxima que ficava cerca de dez quilômetros da nossa moradia. Fui encarregado de levar os cavalos: menino franzino de cerca de dez anos, mas parecia menos, pois era bem fanado. Arriados os cavalos, montei num deles e pus-me a caminnho, a chuva não dava tréguas, caminhos lamacentos e escorregadios. Cavalos teimosos que não queriam andar. O que estava sem cavaleiro chamava-se preto, cavalo muito teimoso e “passarinhador”, termo usado para designar quando o cavalo não seguia sua trilha direito, portando em tudo o quanto é encruzilhada, empacando constantemente. Com muita dificuldade ia conduzindo os animais e rezando para que vencesse a distância que separava da cidade. Mas estava difícil, necessitava de outro cavaleiro para o animal recalcitrante. Até que parei em determinada local do caminho e pedi auxílio, eu sabia que no local morava um menino mais ou menos da minha idade, que podia me ajudar na difícil tarefa da condução dos animais. O homem prontamente cedeu o meu colega, que logo muniu-se de esporas e botas, como todo cavaleiro afoito subiu ao animal e aplicou-lhe as esporas. O animal passou a dar pinotes e meu amigo não demorou muito e foi ao chão. Por sorte pouco machucou-se, pois como disse chovia muito e o chão estava úmido amortecendo a queda. Incontinenti meu colega tornou a montar, pedindo-me que fizesse sigilo sobre a queda. No que foi prontamente atendido. Seguimos viagem, já o garoto mais calmo com as esporas. Aguardamos minha mãezinha chegar da consulta, voltamos a nossa querência, não demorou nossa genitora ficou curada. Sinto orgulho hoje em dia em ter contribuído para a cura de nossa querida mãe, mas as peripécias foram muitas: Lama, chuvas torrenciais, caminhos difíceis, cavalos indóceis, menino "esporudo" e garoto franzino.

2 comentários:

  1. Luiz, eu sabia mais ou menos que a mãe tinha tido tuberculose só que não me lembro, talvez pela pouca idade porque se você tinha 10 anos eu tinha 03 anos. Foi o Dr. Avedis que curou a mãe ou foi aquele médico japonês que o pai tanto gostava? Só discordo da familia numerosa porque naquela época só tinhamos nos quatro ja que os outros ja tinham sido chamados ao reino dos céus. Depois de mim, só veio Pedro Donizete em 1957, nascido em São Luiz e que morreu com menos de 02 meses de vida.

    Um abraço, Maria

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  2. Em primeiro lugar queria agradecer por sua colaboração e interesse por meu blog. É com bastante emoção que eu relato estas histórias, que nós vivemos e sofremos. Vc e nossas irmãs ao nosso lado. É claro que eu sofri mais, pois era o mais velho e com mais responsabilidades, então. Obrigado mana e escreva sempre!

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Gosto de escrever, não o escrever por escrever, mas até uma necessidade intrínseca de me expressar, de transmitir algo, um pensamento, com ist0 eu possa despertar algo de bom em meus amigos. Muitas vezes mesmo é meu desejo de comunicação, já como disse uma amiga, sou tímido, então a comunicação verbal direta estaria dificultada, então a comunicação via internet mil vezes potencializada. Diga o que disserem, mas o computador aproximou as pessoas, que muitas vezes estavam distantes, e tinham poucas possiblidades de comunicação. E os "bloguistas" podem então dar asas a sua imaginação e exercitar as suas potencialidades, que terão mais ou menos leitores de acordo com suas possibilidades e capacidades. O meu blog é geral, pois trato de qualquer assunto, moderno, contemporâneo, assuntos atuais, problemas brasileiros e outros tantos.

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